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Obrigado, Pe Lotário!

Na tarde do dia 20 de abril, quando o sol pendia para o poente e, o piar da coruja a procura de se agasalhar, neste fim de tarde quando as chamas das lamparinas a querosene prostradas nas janelas refletiam uma fina e opaca luz, caricaturando os personagens dessa noite inesperada retornava para casa o Pe. Lotário Weber.

Não para aquela casa em Langenberg, Alemanha, de onde saíra nos idos anos 60, mas para a casa de outro Pai, onde Jesus, o Filho Bem amado, com um grande abraço o apertou e disse: ‘Vinde bendito de meu Pai, recebe por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo”. (Mt, 25,34), E o Pe. Lotário, com um grande sorriso toma posse das promessas eternas que anunciara por mais de 60 anos de sacerdócio!

“Meos caríssimos ermaos”! Assim começava o sermão do antigo pároco da minha Batalha. Alemão de nascimento, que chegou ao Brasil em tempos de mudanças, logo depois de concluir o seu doutorado, numa das ciências mais difíceis a “Filologia Bíblica”. Mesmo morando há mais de cinqüenta anos no país, nunca aprendeu falar nosso português com clareza e sem sotaque.

Homem de conduta ilibada, reservado por natureza, bem ao gosto de uma comunidade cristã de sua época, onde predominava o povo simples e recatado do interior do Piauí dos anos 60.

Na hora da morte, quando se fecha o pano desse autêntico teatro que é a vida, com as suas grandezas e misérias, no balanço que fazemos de quem parte, é habitual salientarmos o que de melhor cada um praticou em vida, abdicando quantas vezes de trazer à luz a face mais oculta da sua personalidade.

Mas o Pe. Lotário Weber, que ora nos deixa órfãos da sua presença e convívio, é justo dizer que trilhou, de coração aberto, os caminhos da vida, semeando amizades como quem planta flores à sua passagem, por Pedro II, Batalha, São João da Fronteira, Cajueiro da Praia, etc. E nesse percurso, em que pôs em evidência a paixão pelo Evangelho de Jesus, pelos pobres, as causas da Igreja, o amor ao próximo, foi um desenhista de horizontes largos e ricos sobre o futuro, seu emprendorismo por onde passou, e esta capacidade quase mística de forjar amizades e entendimentos, foi sempre capaz, com a sutileza própria dos superiormente eleitos, de exprimir com frontalidade as suas posições e de levar paulatinamente o interlocutor à aceitação dos seus argumentos.

Não quero aqui me deter sobre os seus feitos, a sombra de sua vida o diz por si só, ela fala da magnitude de suas ações, seus limites e pecados!

Ao perguntá-lo certa vez se ele tinha medo da morte ele me respondeu com o azul ainda mais brilhante de seus olhos e sotaque apurado: “não, porque eu sei o que vai acontecer”, eu também sei amado padre que depois de tanto bem realizado, tantas coisas feitas em benefício do Reino de Deus e das pessoas o que lhe espera é uma grande recompensa D’Aquele que um dia o chamou ao sacerdócio e o enviou às terras brasileiras e piauienses, nosso Senhor Jesus Cristo!

Obrigado pelo dom de sua vida e pelo seu ministério sacerdotal tão fecundo, sempre, como o senhor gostava de enfatizar: “fazendo o possível, e deixando a Deus o impossível”.

Ao celebrarmos o dia do seu nascimento para os céus, sentimos certo orgulho pela magnitude do que ficou e pelo insondável que o Senhor lhe reservou. “Morto, ainda falarás”, ainda influenciarás com lições inacabadas a esteira dos problemas que a Igreja enfrenta… Amavas a Igreja lá onde lhe podias ser filho afeiçoado, apóstolo amado e destemido, obreiro que se pereniza no Eterno.

Sua vida, toda ela, lhe pertenceu e lhe pertence, e ainda mais depois dos seus 91 anos bem vividos. Sabia em quem punha a sua confiança!

O fogo do seu zelo, que contagiou as comunidades por onde passou fazendo o bem, como para Moisés, criava, em derredor, um “solo sagrado”: era preciso pisar o solo com respeito, pés descalços e delicados: tudo ali era plenificado pelo mistério. Fogo, ardor, zelo, dedicação, serviço, disponibilidade fizeram de tua vinda ao Brasil, tua pátria eterna.

Padre Lotário o dom do seu sacerdócio nos ensinam tantas coisas entre elas que o senhor foi fortemente marcado pela ousadia do Espírito e, que teve a sua vida toda marcada pelo “exílio”, que outra coisa não é senão, peregrinar nas “provas” do Senhor, que o senhor nos pôde ensinar como pai e mestre na Fé.

Seu ministério nos diz que o caminho não é apenas estrada. Caminho é itinerário. Nele há etapas, mesuradas conforme a possibilidade e os limites de cada um. Cada etapa percorrida, uma meta alcançada. Também, há um destino último, uma meta final.

Seu dinamismo missionário indo aqui e ali nos ensina que em todo o caminho, além de si, é preciso saber o que se leva e o que não se deve levar. Além do sonho, na mochila e na mala é preciso o necessário. O que for a mais é precisão supérflua a ser abandonada. A vida é uma grande caminhada nessa terra. E cada um dos caminhos percorrido deve ser uma escola de luz, que ilumina os rumos e fornece sentido ao passo que se dá na vida.

Por fim, o senhor na longevidade dos seus 91 anos nos ensinou que não ouvir o Espírito no caminho é fixar suas tendas, é não querer mudanças. Pois, quem anda com o Espírito muda!Transformação é o que o Espírito opera naqueles que amam a Deus. Somente quem está em transformação pode peregrinar. Quem pára não pode ser transformado, fechou sua tenda, fixou em algum lugar.

Agora, só resta agradecer a Deus o grande dom que foi a vida do Pe. Lotário. Há tempos, ele já havia mergulhado no outro lado da vida, quando com humildade suportava as dores, as idas e vindas para o hospital, enfrentando longas distâncias para continuar seu tratamento, com uma força enorme como se o Espírito de Deus lhe tivesse antecipado a visão beatífica, embora seu corpo permanecesse entre os seus amigos!

Vejo-o agora nos jardins do céu a passear em companhia dos santos. E para nós que ficamos agora é o silêncio da semente que aguarda o renascer, a vida nova que irá desabrochar; o silêncio da saudade fecunda, e dos gestos e feitos do Pe. Lotário, que darão seus frutos!

Obrigado Pe. Lotário pela sua passagem entre nós! Pelo seu sacerdócio, obrigado por ter sido amigo do povo Deus e do Deus do povo, obrigado em fim pelo que significa a sua vida, em tempos de precariedade no testemunho, sua figura se ergue gigantesca!

Caro Pe. Lotário até a eternidade!

Pe. Leonardo de Sales

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