Festa do bode, ou festa do bode expiatório? – Novo artigo de Pe. Leonardo

É comum ouvir de certas pessoas e, com muita freqüência, a expressão “bode expiatório”, neste fim de semana acontecerá em Batalha de 19 a 21 de setembro a 9ª edição da festa do bode, ano passado escrevi sobre ela, e dizia que não sou contra a sua realização, mas sou contra os moldes na qual é feita. O contexto político do ano passado é o mesmo, quando os professores reivindicavam salários atrasados e reajuste, a cena se repete novamente, nada de novo debaixo da linha do equador, diria Caetano Veloso.

A expressão “bode expiatório” teve origem em um ritual anual da tradição judaica, chamado de Dia da Expiação (Iom Kippur, em hebraico), que pode ser lido no capítulo 16 do Levítico, livro da Sagrada Escritura.

Sacerdotes levavam dois bodes ao templo de Jerusalém para que um deles fosse escolhido, em sorteio, para ser sacrificado e queimado junto com um touro no altar dos sacrifícios. O sangue de ambos era colocado nas paredes do templo.

O outro animal, livrado do sacrifício, tornava-se o bode expiatório, que virava um símbolo de purificação e expiação dos pecados e culpas. O sacerdote colocava as mãos sobre a cabeça do bode para confessar todos os pecados de Israel. Em seguida, o povo também depositava os seus erros no animal, que depois era abandonado ao relento no deserto. Dessa forma, acalmava-se o demônio e o povo ficava livre dos males cometidos.

“Ao longo da história, diversos bodes expiatórios surgiram, variando de acordo com o local e o período. Entre eles, os hereges, índios, negros, judeus, deficientes, homossexuais, pobres, imigrantes, comunistas, bruxas, leprosos, ciganos e nordestinos brasileiros.”

Em geral as minorias são usadas como bode expiatório, pois são grupos mais “fracos’”. Mas, se é fácil reconhecer tais elementos da antiga liturgia judaica nas suas modernas adaptações, tal como a festa do bode, às vezes eles são mal caracterizados e corre-se o risco de falsas analogias quando se analisam outros cenários como é o caso da festa do bode.

Já que não há nada de novo no nosso cenário, exceto a política estadual e nacional, que volta à cena, ouso também repetir dois longos parágrafos do texto do ano passado, que segue abaixo.

É uma festa que projeta Batalha no cenário nacional, podem dizer alguns; outros dizem por sua vez, que é uma rara oportunidade para os pequenos produtores exporem o que produzem no anonimato de seus currais, ou talvez haja quem diga que não há nada de mais nisto, pois precisamos nos divertir, já que a situação do município não está lá estas coisas, tudo bem que possa ser tudo isto, mas, também se pode dizer que: são três dias para se divertir e esquecer a situação, segunda-feira a vida voltará ao normal e de novo muitos não terão o dinheiro para pagar suas contas, que a segurança e a estabilidade que um salário justo e pago em dias pode garantir. E não me venham com o papo que esta é uma festa feita de parcerias, porque nenhuma delas são isentas de interesses politiqueiros, nestes três dias circularam políticos de todo o Piauí, bajulando eleitores, vítimas de um sistema enganador e que não lhes deu a possibilidade de ter uma consciência política formada e fundada no senso do Bem Comum.

Será muito fácil se ver nestes três dias políticos que não sorrirá, agradará; não cumprimentará, estenderá a mão; não elogiará, incensará; com as mãos cheias de dedos, encostar-se-á aos honestos para se lhe aproveitar até a sombra, quem estiver lá presente observe e depois me diga que não estou exagerando.

“HJ DIA 18 DE SETEMBRO E AINDA NÃO ME PAGARAM O MÊS DE AGOSTO, JÁ FAZ 49 DIAS QUE A PREFEITURA MUNICIPAL NÃO PAGA”.

Este é o desabafo de um funcionário público, de cortar o coração, como e porque se calar diante disso?

Deixemos para realizar a festa do bode, quando nossos professores e demais profissionais tiverem tanta visibilidade quanto os “bodes” nesta época do ano, deixemos para realizar a festa do bode quando as nossas famílias puderem subir para a “Vila Kolping”, sem a presença de políticos mentirosos, e autoridades arrogantes sempre rodeados de sua corte de bajuladores de toda espécie.

Na liturgia judaica os bodes expiatórios eram mandados para o deserto para expiar a culpa e os pecados do povo, na festa do bode são as próprias pessoas que vão expiar suas dores e lamentos, regados por três dias de festa, lubridiados por falsas promessas políticas e vendo seus impostos sendo utilizados para custear shows caríssimos e patrocinar atrações de nível duvidoso, que excetuando as raras exceções, de cultural pouco ou quase nada possuem.

Padre Vieira, em São Luís do Maranhão, no sermão em homenagem à festa de santo Antônio, em 1654, indagava: “O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?”

A seu ver, havia duas causas principais: a contradição de quem deveria salgar e a incredulidade do povo diante de tantos atos que não correspondiam às palavras. Completando o que disse o maior orador sacro, ouço dizer: salguemos os bodes e assemo-los, e novamente nos deixemos enganar, pois na falta de horizonte o céu é o limite.

Quem puder entender que entenda, quem não entender poderá se perguntar: vendo-me por um pedaço de bode assado, por uma banda de forró, por uns goles de cerveja quente ofertada por um político qualquer, ou sou digno o suficiente ao ponto de discordar da grande faça que ai estar?

Que os bodes sacrificados nesta festa afastem de nós os maus políticos e os interesses políticos, seria esta a crença dos judeus, como sou cristão, sei que bodes não têm poder para tanto, sejam os falsos políticos mesmo a irem para o deserto da não re-eleição, do esquecimento popular, a chorar os seus pecados, dessa forma, acalma-se-a o demônio e o povo ficará livre dos males futuros a serem cometidos.

Pe. Leonardo de Sales.
© 2013-2021 Diário de Caraíbas - Todos os direitos reservados.