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Quem sou eu? - Por Pe. Leonardo Sales

Artigo do Padre Leonardo Sales sobre o aniversário de Batalha, em 15 de dezembro
Eu sou como um time de futebol, como um partido político para os fanáticos, ou ainda como um daqueles flertes que se dar na adolescência, na escola, numa festa, ou numa novena para uma moça, ou seja, ame-me ou deixe-me! Nem menos nem mais, ainda que seja incondicional, esse amor não é cego. Quem me ama, encara minhas mazelas, sim mas procura ressaltar a minha beleza, história, e minha cultura que justificam esse sentimento, que mistura a saudade do passado - com antigos carnavais, estórias de assombrações, lobisomens, e etc.
Já tive um passado de glórias, farinhadas e moagens, buritis em abundância e bacuri de sobra, doce de mangaba e "tiquira" em tonel, dança de roda e moleques pulando amarelinha nas minhas calçadas e praças.

Conheço muita gente desde a infância, testemunhei namoros atrás da matriz, e nas antigas "tertúlias", vi muitos jovens adquirirem a liberdade, sonharem com um futuro melhor para mim, e já dei sepultura a muita gente!

De mim partiram muitos filhos, até pra além mar, em busca de uma vida melhor, mais quando chega o mês de dezembro, eles me dizem que dar uma coceira nos pés, e a cabeça não pensa em outra coisa só em mim, todos querem me rever. Ninguém compreende, só eu, a grande dor que sente um filho meu ausente a suspirar por mim!

Sou filha de portugueses, tive um casamento misto com índios e negros, minha beleza e inteligência se pode ver nos filhos que gerei, resultado dessa mistura de raças, jeitos e molejos, tenho só duas irmãs em todo o mundo: uma em Portugal e outra em Alagoas.

Sou quente, mas apesar da minha calidez equatorial, alivio o meu povo com a sagrada chuva, que a todos banha e inspira. Chuva que canta uma melodia que só um filho meu conhece. Há quem diga que chuva é a mesma em qualquer lugar, mas um querido filho meu desmente: "aqui ela cai como sinal de esperança que teremos um bom inverno, cai lentamente sobre os telhados, enchendo os rios e banhando as matas, tem nome de preguiça, se cai à tarde, quando se come milho verde assado ao "pé" do fogareiro, e se toma café com beiju ou com bolo frito, ou mesmo se janta feijão de corda com arroz novo torrado e temperado com azeite de tucum.

Eu nasci, cheia de beleza e viço. Criei identidades e tradições próprias. Todos conhecem a beleza da minha igreja matriz, luzeiro de fé no alto da colina.... A mística dos festejos de Nossa Senhora e de São Gonçalo, os banhos de cachoeiras, as semanas santas, as casas cheias de parentes que vieram de longe, meu Deus... Já vivemos tantas coisas juntos.

Se ainda não sabes quem sou eu lhes digo mais: Estou situada a 143 km da capital, Teresina, quem me fundou foi um grande estrategista, estou a meia distancia entre os estados do Ceará e do Maranhão, tenho rios e belas cachoeiras, sou cheia de flores, e de encantos! Sou causadora de saudade, daquela que faz doer, os que realmente me amam já me disseram, já ouvi tanto este lamento, como o de Davi com sua harpa nas montanhas de Judá, com seus salmos de lamentações:

"Por um tempo te deixei. Paixão antiga, dessas que se sentem na pele. Andei por outras ruas, outras paisagens, tão lindas quanto. Mas, faltava a nossa intimidade, a nossa cumplicidade, o nosso cotidiano em comum. Aqui é meu chão. Aqui, ando de pés descalços e de olhos fechados. E nem assim me perco. E se me perco, logo me vejo na tua paisagem, nos teus pau-d'arcos floridos, nas tuas mangueiras frondosas, nos teus cajueiros grávidos de doces e coloridos cajus, e nas tuas sapucaieiras perfumadas, no topo da torre da velha matriz, vista de longe... no verde de tuas árvores, na alegria do teu povo, no teu ar de verão eterno. Cheguei... e sempre que chego depois de um tempo fora, mais forte é a minha convicção de que aqui é meu chão. Crescemos juntos, vivemos nossa meninice, nossa adolescência, nossa mocidade, até virarmos "senhoras" e "senhores' juntos(as). Tempo o suficiente para criarmos raízes. Posso afastar-me de ti, temporariamente, mas só volto a me encontrar quando chego e te vejo, qual porto seguro, a me acolher, me encantar... Por tudo isso,só posso dizer: te amo!”

Eu revelo meu grande valor, na maioria das vezes e paradoxalmente, quando aqueles que realmente me amam estão longe de mim! Quando estão longe, mostro aos meus filhos o quanto eles sentem a minha ausência: sentem falta das comidas, do bom papo na calçada do vizinho, do cheiro de coentro, das novenas de dezembro, dos amigos, dos parentes, saudade da minha água, do meu doce, do carinho de suas mães, das coisas que só quem é daqui sabe o que digo!

Já dei berço a poetas, beatas, políticos, padres, médicos, músicos, loucos, advogados, engenheiros e artistas, já acolhi forasteiros que aqui fizeram suas vidas; vi nascer aqui muita gente de bem. Gente heróica e honesta a enfrentar coronéis e oligarcas, que ameaçam o seu pão e tripudiam de seus direitos!

Para não dizer que não tenho espinhos, como toda dama, quer seja de nível mundial, nacional ou regional, eu também sofro muitas contradições, sobretudo sociais e políticas. Sem que isso absolva possíveis responsáveis, entendo que, em certa medida, é também uma inerência de pertencer a um mundo doente.

No dia do meu aniversário quero dizer palavras de repulsa àqueles que dizem me governar, essas tristes figuras do mundinho político que me assoberbam. Sem disfarçar a mágoa que me rasga as entranhas, sofro o atraso do desenvolvimento, destes que consumem os dias, sem dizer em nenhum deles o que se propõem a fazer por mim em quatro anos.

Expresso a minha profunda tristeza, por aqueles que utilizam argumentos esfarrapados, sem consistência ou coerência, lastro ou base moral. Eu percebo a real intenção, porém, salta aos olhos: tudo o que é feito para satisfazer a ambição desmedida de quem não alcançou o que desejava pelas vias adequadas. Como não podem justificar o ato cometido alegando a própria torpeza, criaram o conto da carochinha para ver se colava. E como colou! O resultado todos que me habitam sentem na carne. O interesse espúrio dos representantes finalmente sobrepujou as lídimas aspirações dos representados. Que triste!

Não quero bolo, concurso, nem banda de música, ou coisa e tal, no dia do meu aniversário! Decerto, muitas autoridades não comemorarão o espetáculo circense, do dia 15 de dezembro, com pizza, por se tratar de iguaria fartamente degustada e que lhes causa já tanto fastio. Mas estarão rindo e acenando no alto dos seus palanques, para os bobos da corte, como majestades intocáveis, ocupantes da cadeira que não dignificam.

Quero respeito, isto sim! Pois, já sou uma senhora de 158 anos, quero filhos que personifiquem atributos que lhes constituem o caráter: arautos da moralidade, baluartes da ética, bastiões da virtude e guardiões da retidão.

Que meu povo se valorize e seja valorizado, valorize seus ancestrais, sua cultura, seus símbolos, sua música, sua gente!

Que cuidem de mim como uma mãe gentil, pois, em cada canto do país e até mundo afora, tem sempre um filho meu “acuado de saudades” de mim!

Quem sou eu? Querem saber o meu nome? Meu nome é Batalha! Data de nascimento: 15 de dezembro de 1855!

Somos nós quem habitamos em Batalha, ou é ela quem nos habita? Ouso responder, a esta que não é uma pergunta difícil: Não! Enfim, é a cidade que habitamos que nos habita a cada um de nós!

Como o eco de uma voz vinda do alto da Pororoca, que atinge todos os lados dizemos: "Parabéns! Bom dia Batalha! Bom dia, meu amor!". Que num futuro próximo possamos lhe dar um presente melhor!

Pe. Leonardo de Sales 

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