O debate sobre o fim da escala 6x1 não pode ficar restrito aos possíveis custos para as empresas. Em discussão no Senado Federal, a redução da jornada de trabalho também envolve saúde, descanso, convivência familiar e o direito de trabalhadores terem tempo para além das obrigações profissionais.
A resistência de entidades empresariais merece ser considerada. Pequenos negócios podem enfrentar dificuldades para reorganizar equipes, contratar funcionários e manter suas operações. No entanto, os possíveis impactos econômicos não devem ser tratados como argumentos definitivos contra qualquer mudança.
O trabalhador não pode ser considerado apenas pelo custo que representa para a empresa. O tempo de descanso também faz parte de uma relação de trabalho digna. Depois de seis dias consecutivos de expediente, o único dia livre pode ser insuficiente para conciliar tarefas domésticas, compromissos pessoais, convivência familiar e recuperação física.
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| Foto: Reprodução/magnific |
A discussão precisa avançar para além da oposição entre direitos trabalhistas e sustentabilidade dos negócios. A experiência internacional mostra que mudanças na organização da jornada podem ser testadas e avaliadas. Em Portugal, um projeto-piloto de semana de quatro dias realizado em 2023 reuniu 41 empresas privadas e mais de mil trabalhadores, com resultados positivos relatados em aspectos do equilíbrio entre vida profissional e pessoal. A experiência não equivale à proposta brasileira, mas ajuda a demonstrar que existem alternativas a serem estudadas.
Isso não significa ignorar as dificuldades de implementação. Setores com funcionamento contínuo e empresas com equipes reduzidas podem precisar de prazos e condições específicas de adaptação. O desafio é construir uma transição que considere essas diferenças sem transformar as dificuldades operacionais em justificativa permanente para adiar a discussão.
A flexibilidade nas relações de trabalho também precisa ser analisada com cautela. A negociação entre patrões e empregados ocorre, muitas vezes, em condições desiguais. Por isso, qualquer modelo deve preservar direitos e garantir que a necessidade de manter o emprego não obrigue o trabalhador a aceitar condições desfavoráveis.
O fim da escala 6x1 não resolverá todos os problemas do mercado de trabalho, mas abre espaço para discutir que tipo de relação profissional o país pretende construir. A produtividade e a viabilidade econômica são importantes, mas não podem ser os únicos critérios para avaliar o futuro do trabalho.
Uma economia que depende do esforço diário de milhões de pessoas também precisa considerar o tempo, a saúde e a qualidade de vida dessas pessoas.
