A Quaresma batalhense!

Passado os festejos de Momo, assinalados ou não na fronte com as cinzas da quarta-feira estamos todos em clima de Quaresma. Ir à missa na quarta-feira de cinzas è um preceito tão importante como ir ao velório daquele amigo do peito que partiu para a eternidade.

Quarta-feira de cinzas, logo cedo o sino, o velho bronze da matriz, depois das seis compassadas badaladas, dobrava, compungidamente, anunciando o início quaresmal.

A população pouco se dava ao clamor lúgubre do arauto de Deus, porquanto, entregue aos delírios carnavalescos, aproveitava os últimos instantes da farra curtindo um bom sono e a ressaca, que se estendia manhã afora até o bater dos pratos, anunciado o almoço sem carne do dia de preceito.

Quarta-feira de cinzas, todo mundo de braços caídos, depois de fartas festas, numa cidade religiosa como a nossa, os foliões se recolhiam, arrastando os despojos de quatro dias de loucura coletiva, como bandos desorientados, buscando o primeiro pouso para recuperação das forças combalidas.

A intensidade do rito praticado apontava para a importância que uma comunidade atribuía aos seus símbolos, e na interpretação que tinha de si mesma no conjunto de sua identidade cultural e religiosa.

Nesta crônica quero me deter sobre a vivência deste tempo em nosso chão, chamado Batalha, feito de histórias, lembranças e memórias, a Quaresma em Batalha, num passado não muito distante era algo tão carregado de ritos e proibições, que não pode passar despercebido como um simples tempo do passado, pois este tempo é grávido de significados que nos ajudam constantemente a redesenhar o presente e a nos compreendermos como o povo que somos!

Várias lendas e crendices permeavam o imaginário popular no período da Quaresma, os quarenta dias desde a quarta-feira de cinzas até a quinta-feira da Semana Santa. Hoje, essas tradições estão bem mais reduzidas, acabaram se perdendo com o tempo. Porém, para pessoas mais velhas de nossa cidade, e em alguns lugares no interior, a Quaresma era um período de recolhimento, oração, e de dormir cedo, principalmente na sexta-feira, pois ouvia quando menino da boca dos mais velhos com tamanha convicção, assim me dizia dona Maria da Mementinha, uma velha vizinha, que acreditava que nesse dia a mula-sem-cabeça e o lobisomem estão soltos no mundo.

Variados e copiosos são os aspectos folclóricos decorrentes de atos, fatos, fórmulas, ritos e quase dogmas desse tempo da Quaresma. Nesse folclore religioso inclui-se todo um infindável rol de superstições, enfim um cortejo infinito de tradições que, por estarem tão ligadas à religião, mais entranhadamente aqui e ali, sem chegar a ser uma regra, resistem à força demolidora da “civilização”.

Para esse folclore, a Quaresma, e dentro desta a Semana Santa, concorriam com interessante contingente de crendices, orações e adivinhações, o bulhento ofício de trevas, a solene procissão de Sexta-Feira Santa com beús e matracas, e, no sábado da Aleluia, assim chamado pelos antigos, rumorosa e festiva malhação dos Judas.

Neste tempo não se matavam os passarinhos, as baladeiras eram aposentas, não se cortava o cabelo, não se dançava, e por ai vai uma lista “nãos” e de proibições que ficaram em nossas memórias e funcionavam como o interdito da proibição e nos educavam para os limites da ética do pode e do não pode!

Do velho Pindar, um vizinho místico que se apresentava sempre como uma mistura de homem sábio, porém, dados aos vícios, sobretudo, com seu “pau ronda”, uma espécie de cigarro artesanal, feito à base de fumo natural, desde velho senhor que sempre me contava que se alguém passasse na Sexta-Feira Santa perto de um cemitério, iria ver algum morto caminhando, além disso, durante toda sexta-feira da Quaresma pontificada o velho místico, não se podia sair à noite que poderíamos ver o lobisomem.

Por sua vez dona Gregorina arregalava seus olhos cinzentos para me alertar: “dançar, só até a meia noite da quarta-feira de cinzas, se passasse disso, agente poderia ver o demônio. Recordo-me que ela me dizia assim: “pula, pula até meia noite, porque depois o diabinho aparece”.

Com o avanço dos dias findava-se a Quaresma, e chegava a Semana Santa, tempos dos “jejuns”, cada vizinho praticava uma solidária troca de dons, quem tinha farinha em abundância trocava por ovos que por acaso vinha a faltar em sua cozinha, e assim por diante, pratica que desapareceu em nossos dias!

A sexta-feira santa, mais que qualquer outro dia era um dia pitoresco e de imaginação popular. Por exemplo, quem da minha idade ou para além dela já não ouviu pelas rodas de conversa em Batalha em tempos de Semana Santa que: Em sexta-feira não se corta unha, porque “faz unheiro” ou “dá dor de dente” ou “dá inflamação nos dedos”. Às crianças em tal dia, “só a madrinha pode cortar as unhas”. Na Sexta-Feira da Paixão não se varre a casa – porque “faz mal”; porque “se varre os cabelos de Nosso Senhor”, “Não se corta nem se chupa cana” – alusão talvez à cana que serviu de cetro a Cristo. Ou ainda que “Na sexta-feira santa não se deve viajar” – “faz mal”, “é perigoso”; “acontece desastre”. Também em tal dia, “não se deve fazer a barba”;  “não se deve emprestar sal”; “não se deve olhar no espelho “– é agouro “Quem ri na sexta-feira chora no domingo.”

Era comum ouvi também que na Sexta-Feira da Paixão – isso escutei de Dona Anaídes, beata das antigas que “Marias não podem cortar o cabelo”; e “também não podem pentear-se, porque” Maria Santíssima não se penteou.

Essas crendices que giram em torno da Quaresma são resultados de invenções populares e até mesmo do fanatismo de alguns fiéis ao longo dos anos. Podemos dizer que não havia em si proibições, havia orientações, mas o povo radicaliza às vezes.

Quaresma, quando menino eu não sabia, não é não pode isso ou aquilo, é um período de sobriedade, de recolhimento. Existe um monte de crendices, mas isso não tem nada a ver com o Cristianismo, são coisas que nasceram paralelas. Que bom que não sabia, pois isto em favoreceu a vivenciar um ambiente de mistério numa cidade pitoresca do interior!

Mesmo sendo crendices, fantasias ou lendas, o fato é que em tempo de Quaresma havia um “clima” que se sentia mais, é claro que havia os exageros das observâncias reduzindo por vezes este tempo bonito e de crescimento espiritual às crendices e proibições, porém, ajudavam a perceber que não era um tempo comum como os outros, pois tinha o seu diferencial, alguma coisa mudava nos costumes e na viva da comunidade, era como um rito de passagem!

As proibições e alterações de comportamentos apontavam para algo que se esperava, e é exatamente isto que falta à nossa cultura atual, que reduziu tudo ao racional, ao pragmático, ao que se pode ter resultado calculado, muito perdemos do dinamismo mítico das crendices.

É claro que o Evangelho não prega estas observações que são dados da cultura, e sem dúvidas de uma religião que apostava no medo, não se pode negar isto sem dúvidas, porém, pelo outro lado dava uma cadência mística ao tempo e fazia perceber o novo que estava para acontecer, ou seja, a Páscoa que renova as esperanças na força do Senhor que tudo vence, inclusive a escuridão da morte e irrompe com o aleluia da vitória sobre as estruturas do pecado!

Em Batalha a Quaresma sem dúvidas era marcada por este tempo de ambigüidades, de ritos e de crendices. Recordo-me de vivenciar um clima tão mítico e ao mesmo tempo tão místico incentivava a prática de orações, rezas, benzeções, crendices – coisas que davam vida e fortaleciam a cultura popular. Mais do que isso, aumentavam a presença da imaginação criativa e de seus efeitos pitorescos no dia-a-dia local, em uma época muito peculiar do calendário religioso.

De um modo geral, a urbanidade e o anseio por modernidade estão extinguindo o sentimento especial que cobria de nebulosidade mágica e de muito mistério o tempo da Quaresma em Batalha.

Hoje, a tecnologia devassa tudo, mostra até o avesso das casas dos becos mais retorcidos e escuros.

Daí, então, a mítica deste tempo místico desapareceu no batalhense atual. Sobrevive apenas na lembrança daqueles que já estão esgarçando a memória a caminho do esquecimento.

Sou ancorado nas minhas lembranças vez por outra me dou o direito de visitá-las e, neste tempo de Quaresma me recordo dos meus tempos de meninos a subir e descer o patamar, fazendo vias-sacras pelas ruas, cantando benditos e vivenciando ainda que amedrontado o tempo do roxo quaresmal!Com crendices e talvez com um pouco de exageros, mas sem dúvidas, éramos felizes, que saudade!

Pe. Leonardo de Sales.

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